Ao Bruno, silêncio. À Suzy, a barbárie.



Você se lembra de Bruno Fernandes de Souza? Ele era um goleiro profissional que, no auge da sua carreira, em 2013, foi condenado por ter sequestrado, torturado, matado, esquartejado e dado partes do corpo desmembrado de Eliza Samudio aos cachorros. Ela era mãe do seu filho bebê. Durante os anos que ficou preso, Bruno recebeu inúmeras visitas, construiu relacionamentos, arrumou uma namorada e, recentemente, recebeu liberdade condicional para trabalhar fora do presídio. Ele recebeu algumas propostas de trabalho para voltar ao futebol.


Quando Bruno ganhou o direito à liberdade provisória, estava em todos os jornais, mas não houveram tantas manifestações ferozes de e-justiceiros (justiceiros da internet) indignados por ele ter ganhado novas oportunidades, apesar do crime monstruoso que cometeu. Do outro lado, a travesti Susy, presa por sequestrar, estuprar, estrangular um garoto de apenas nove anos e ocultar o corpo, foi personagem de uma matéria do Drauzio Varella para o Fantástico e, em dado momento, recebeu um abraço carregado de compaixão do médico que a entrevistava. Quase que instantaneamente, Suzy recebeu toda a indignação armazenada dentro dos e-justiceiros, "defensores da vida" e "pessoas de bem". Ela, o Fantástico, Drauzio Varella e quem mais ousar explicar a COMPAIXÃO e EMPATIA têm recebido ataques furiosos na internet.


Os mesmos que, hoje, compartilham conteúdo raivoso, odioso e espumado negando o direito da travesti de receber algum sentimento bom ou afetuoso, ficaram calados enquanto o goleiro Bruno estava dando autógrafos para crianças nos intervalos dos treinos. O crime do Bruno não foi importante? É menos grave porque ele matou uma mulher? Podia porque a Eliza podia ser uma prostituta? Podia porque ela o teria chantageado? Eliza merecia porque "era uma vagabunda"? Por que essa virulência veio à tona apenas agora, com a Suzy? Onde estava toda a indignação quando Bruno saiu da cadeia?


Este texto não tem por objetivo direcionar a raiva para o Bruno. Pelo contrário. Bruno é tão digno de compaixão, empatia e oportunidade que qualquer outra pessoa. Humanos podem se arrepender e refazer sua vida, inclusive dando apoio às pessoas a quem causaram mal. Apesar de eu acreditar que não seja adequado um assassino no nível do Bruno se tornar um ídolo do futebol...


Na verdade, este texto é para questionar onde estava armazenado esse sentimento de indignação. Qual filtro a sociedade usa para definir o que é revoltante ou não, o que é aceitável ou não, o que é merecedor de perdão ou não? Por que nos comportamos de maneira diferente diante de situações parecidas? Por que a "desgraça" e "aberração" da travesti marginalizada é menos merecedora de perdão que o jogador de futebol de sucesso?


Tudo isso só reforça a importância da matéria do Fantástico ao mostrar que viver "livre" é mais perigoso para as pessoas trans que dentro da cadeia. Mostrar que o ódio está na estrutura da nossa sociedade, mas é direcionado a quem é mais diferente. E que você pode até errar e será perdoado, desde que você não seja preto, favelado, puta, traveco, viado, gordo, aleijado, aidético, mulher ou qualquer outra população marginalizada, oprimida ou desprezada. A Bruno, o silêncio. À Suzy, a barbárie.

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