Carlinhos Maia e a NOSSA luta contra a intolerância

Atualizado: 11 de Mai de 2019



Vamos falar um pouco do Carlinhos Maia? Ele é aquele rapaz do Nordeste que ficou bastante famoso compartilhando sua vida pessoal de modo engraçado nas redes sociais. Recentemente ele assumiu ser gay e sua última declaração foi que seu casamento com o noivo “não é um casamento gay, mas o casamento de Carlinhos e Lucas”.


Ao dizer que “não é um casamento gay, mas um casamento de dois caras”, ele desqualifica - de certa forma - a importância da cerimônia para a luta contra a homofobia e demonstra a recusa a uma bandeira que claramente não é sua, mesmo se beneficiando diretamente da luta dos ativistas LGBTI+. Porém, inegavelmente, um casamento é um momento político. É um momento de afirmação, cidadania e de confirmação para a sociedade que rodeia os noivos. Sejam eles heterossexuais ou homoafetivos.


Na minha humilde avaliação, ele pode (1) estar querendo evitar tretas com parte do seu público, uma vez que mexer nisso pode lhe trazer prejuízos, inclusive financeiros, ou pode (2) estar querendo dizer que não é um casamento gay, mas um casamento de duas pessoas, pouco importando o gênero, ou pode (3) não entender de fato tudo o que isso significa politicamente, ou pode (4) não estar querendo ser incluído na “categoria” gay, porque considera que todos são iguais, ou, ainda, pode (5) querer negar o pertencimento a essa população por “n” questões psicossociais.


Ao mesmo tempo, o que eu acredito estar deixando todos nós que levantamos bandeira mais irritados é porque perdemos a chance dessa causa ser comprada por alguém com um potencial enorme de formar opinião. Se ele comprasse essa briga, poderia ajudar muita gente com dificuldades para compreender e lidar com sua própria sexualidade ou de outrem. Certamente, menos pessoas poderiam ser atacadas e mortas pela ignorância de intolerantes. Se um único caso fosse evitado, já teria valido a pena. Ele poderia trazer uma ideia de “normalidade” para a relação entre pessoas do mesmo gênero, uma vez que seu público é muito plural e gosta pessoalmente dele. Ele também poderia ajudar a desconstruir a falácia atual de que “o ativismo gay está querendo doutrinar o mundo”, mostrando que temos praticamente as mesmas necessidades e desejos de qualquer ser humano - salvo diferenças naturais dos indivíduos. Isso seria incrível, é verdade! Mas nós não o temos. E, provavelmente, não o teremos.



Mas, independentemente dos motivos dele para recusar essa bandeira, é fato que seu discurso não ajuda e prejudica na luta. Ele acaba reforçando o discurso conservador de que “para reduzir um preconceito é melhor não falar sobre ele”. Ledo engano, querido leitor… As mudanças não vêm naturalmente. Negros, LGBTI+, mulheres, deficientes e outras “minorias” têm lutado incansavelmente e despejado muito sangue, suor e lágrimas para conseguirem o mínimo de dignidade e garantia de direitos que nos coloque próximos do patamar dos outros humanos. É fantasioso e raso acreditar que os homens héteros brancos que estão no poder perceberão nossas necessidades e irão propor mudanças. Até porque, são exatamente essas diferenças que os mantêm no poder.


Logo, temos um longo caminho pela frente. E para evitar decepções, sugiro que não coloquemos esperanças nas condutas do Carlinhos. Ele nasceu, cresceu, introjetou e reproduz o discurso conservador. E mudar isso requer muito, mas muito esforço e paciência. Ataques só o afastam. Eu também já caí nesse discurso, mas tive a oportunidade de conhecer histórias que me permitiram sair da minha bolha de privilégios, compreender melhor essa luta e decidir entrar nela. Porque não basta ser parte de uma “minoria” para brigar pela causa. Você também tem que escolher fazer parte, ter muita coragem e ser capaz de sentir a dor do outro.


Que ele se beneficia da luta da bicha preta afeminada que foi morta na periferia, é claro! Mas devemos esperar menos dele. E a única coisa que ainda espero é que seu discurso conservador não saia como um tiro - que mesmo sem intenção de prejudicar - rebata e retorne para seu próprio pé.


REFERÊNCIAS

1. CANAL STJ: 30 Anos STJ - União Homoafetiva. Disponível em https://youtu.be/jPK99B5DCwM

2. FOLHA DE S.PAULO: Vamos acabar com coitadismo de nordestino, de gay, de negro e de mulher, diz Bolsonaro. Set/2018. Disponível em http://bit.ly/2DT09jG

3. CATRACA LIVRE: Carlinhos Maia aponta ditadura gay após assumir homossexualidade. Fev/2019. Disponível em http://bit.ly/2Hao9PU

4. CANAL JOÃO GERALDO NETTO: Pedido de casamento João e André (Ilha Grande - agosto de 2012). Disponível em https://youtu.be/M9KX8lCFJO8

10,677 visualizações4 comentários

Redes sociais e contato

  • YouTube
  • Fanpage
  • Instagram
  • Twitter
  • WhatsApp

©2012 por Rede Mundial de Pessoas que Vivem e Convivem com HIV