Doação de sangue por gays não aumenta os casos de HIV

Atualizado: há 7 dias



Um estudo científico apresentado na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI2020) demonstrou que não houve aumento no número de doações de sangue de doadores recém infectados pelo HIV desde que os Estados Unidos relaxaram as regras para doação de sangue para homens que fazem sexo com homens.


Embora todas as doações de sangue sejam testadas e rastreadas para o HIV, todos os testes laboratoriais têm um "período de janela imunológica" no qual infecções muito recentes pelo HIV não podem ser detectadas. Para os testes de RNA mais sensíveis usados ​​pelas agências de coleta de sangue, isso pode levar entre 10 e 16 dias. Por esse motivo, um pequeno número de amostras infectadas ainda passa. Como os homens que fazem sexo com homens (HSH) têm taxas mais altas de HIV do que a população em geral, os reguladores geralmente pedem que esses não doem sangue. No Brasil, uma regra quebrada recentemente considerava inapto homens que tivessem feito sexo com outros homens nos doze meses antes da doação, impossibilitando pessoas que mantivessem vida sexual ativa pudessem doar. No Brasil e no resto do mundo, homens gays e bissexuais têm lutado para derrubar essas restrições, considerando-as estigmatizantes e discriminatórias.


Mesmo com a proibição em grande parte do mundo, o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil considerou as resoluções do Ministério da Saúde e Anvisa inconstitucionais, uma vez que homens cisgênero heterossexuais que fizessem sexo anal corriam o mesmo risco que homens gays ativos, mas o primeiro estava liberado para doar sangue, enquanto o segundo, não. Segundo o STF, perguntas mais detalhadas sobre comportamento e prática sexual podem ser feitas a todos os doadores, que o período e que o período de 12 meses é muito superior à janela imunológica dos exames mais sensíveis, já realizados nos bancos de sangue. Além desse argumento, ativistas de Direitos Humanos e da população LGBTQIA+ alegam não fazer sentido a restrição em um país onde há escassez de doadores de sangue.


Em 2015, a política dos EUA mudou de uma proibição vitalícia de doações ('indicação indefinida') de qualquer homem que relatasse ter feito sexo com outro homem após 1977, para um período de adiamento de 12 meses. Isso significa que homens que fizeram sexo com outro homem há mais de um ano são elegíveis para doar sangue, enquanto homens que fizeram sexo mais recentemente não o são. Exatamente como as regras antigas do Brasil.


Os dados apresentados pelo pesquisador na conferência vieram do Sistema de Monitoramento de Infecções Transmissíveis por Transfusão dos Estados Unidos, que analisa o sangue doado pela Cruz Vermelha Americana, pelo Hemocentro de Nova York e pelo OneBlood (aproximadamente 60% de todo o suprimento de sangue dos EUA). Os pesquisadores usaram um algoritmo para identificar infecções recentes pelo HIV entre 5,7 milhões de doadores iniciantes. Uma infecção recente pode ser aquela em que o RNA do HIV foi detectado, mas os anticorpos do HIV ainda não, ou com uma resposta de anticorpos que levasse a ideia de uma infecção recente.


Os pesquisadores calcularam a taxa de novas infecções pelo HIV em doadores de sangue 15 meses antes das mudanças das políticas de doação e 15 meses depois.


Antes da mudança de política, quando todos os HSH foram solicitados a não doar, havia 2,6 casos em cada 100.000 doadores, por ano. Após a mudança de política, com o período de diferimento de 12 meses, houve 2,9 casos em cada 100.000 doadores por ano. Essa aparente diferença minúscula não foi estatisticamente significativa, ou seja, deveu-se provavelmente ao acaso.


Enquanto os pesquisadores identificaram algumas características dos doadores que estavam associadas a maior incidência de HIV: sexo masculino, 18 a 24 anos, etnia negra ou hispânica e morando na região sul do país. Essas eram constantes antes e depois da mudança de política. A incidência do HIV não aumentou em nenhum grupo demográfico após a mudança de política.


Os pesquisadores também usaram modelagem matemática para estimar o risco residual de transmissão do HIV a partir de uma transfusão de sangue, levando em consideração as doações feitas após uma infecção por HIV muito recente que não é detectada pelos testes de RNA.


Eles estimaram o risco residual em 1 em cada 3 milhões de transfusões de glóbulos vermelhos compactados ou em 1 em 1,8 milhão de transfusões de plasma fresco congelado. Esses números após a mudança de política não foram estatisticamente diferentes dos anteriores.


O pesquisador que apresentou o estudo, Dr. Eduard Grebe, disse que isso confirma que a segurança do suprimento de sangue nos Estados Unidos é "extraordinariamente boa", especialmente considerando que os números se referem a doadores iniciantes, enquanto a maioria das doações provém de repetidos doadores, que são considerados de baixo risco.


"Não há evidências de que a implementação de uma política menos restritiva de doação de sangue por homens que fazem sexo com homens para 12 meses tenha resultado em maior incidência de HIV e, portanto, risco de transmissão de transfusão dos doadores de sangue iniciantes nos Estados Unidos", concluiu.


REFERÊNCIAS

GREBE E. et al.: No HIV incidence increase in first-time blood donors with 12-month deferral for MSM. Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, abstract 145, Mar/2020

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL: Ação Direta de Inconstitucionalidade 5543. Jun/2016

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL: Proibição de doação de sangue por homens homossexuais é inconstitucional, decide STF. Mai/2020

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL: Voto do relator da ADI 5543 Senhor Ministro Edson Fachin. Out/2017

AIDSMAP: No increase in HIV in blood donations since rules for gay men were relaxed. Mar/2020

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