HIV reaparece em paciente "curado" de São Paulo

Atualizado: Mar 20



Um brasileiro que no meio de 2020 não tinha evidências de HIV no seu corpo, mesmo após mais de 15 meses sem terapia com medicamentos antirretrovirais, teve a carga viral do vírus detectável, de acordo com um relatório apresentado na Conferência virtual sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI). O estudo está em andamento para determinar se ele experimentou rebote viral ou reinfecção.



O caso de "cura" foi relatado com muito alarde na Conferência Internacional de Aids 2020 (AIDS 2020), com alegações de que o homem poderia ser a primeira pessoa a alcançar uma cura funcional sem um transplante de células-tronco.


Até agora, duas pessoas parecem ter sido curadas do HIV após receberem transplantes de medula óssea para t


ratar de câncer avançado. Ambos receberam células-tronco de um doador com uma rara mutação genética conhecida como CCR5-delta-32, que impede a maioria dos tipos de HIV de entrar nas células. Timothy Ray Brown, conhecido como o "paciente de Berlim", e Adam Castillejo, apelidado de "paciente de Londres", continuam sem a presença do vírus mesmo vários anos após a interrupção do tratamento.


Mas os transplantes de células-tronco são muito perigosos para pessoas que não precisam deles para tratar o câncer que ameaça a vida. Além do mais, a intervenção intensiva e cara provavelmente não poderia ser ampliada o suficiente para torná-la viável para milhões de pessoas vivendo com HIV em todo o mundo.


O "paciente de São Paulo", de 35 anos, foi participante de um ensaio clínico que avaliou vários regimes de drogas em um esforço para reduzir o tamanho dos reservatórios (santuários) do HIV, uma vez que essa é considerada a chave para uma cura funcional ou a capacidade de permanecer sem antirretrovirais por longo prazo e sem a volta da carga viral.


O homem foi diagnosticado com HIV em outubro de 2012. Em um ponto, sua carga viral atingiu mais de 20.000, indicando que ele não era um controlador de elite. Quando ele entrou no estudo em setembro de 2015, ele tinha carga viral indetectável e estava em tratamento há mais de dois anos.


Dois antirretrovirais adicionais, os medicamentos dolutegravir e o maraviroc foram adicionados ao regime de três medicamentos padrão junto com nicotinamida, uma forma de vitamina B3. Ele permaneceu nesta combinação de cinco drogas por 48 semanas, em seguida, voltou à terapia padrão.


Em março de 2019, o homem iniciou uma interrupção do tratamento monitorada de perto. No AIDS2020, o Dr. Ricardo Diaz, da Universidade de São Paulo, relatou que fazia mais de 15 meses que o "paciente de São Paulo" continuava a ter carga viral do RNA indetectável, bem como a carga viral DNA também estava indetectável. Além disso, o nível de anticorpos do homem diminuiu continuamente, caindo o suficiente para que um teste rápido de anticorpos se tornasse negativo.


Na época, esse homem era o único dos cinco participantes do ensaio tratado com esse regime de medicamentos que ainda apresentava supressão viral após interromper o tratamento.


"O fato de ser um único caso sugere que isso pode não ser real", disse o Dr. Steven Deeks, da Universidade da Califórnia em San Francisco. “Sabemos que algumas pessoas podem alcançar o que parece ser a remissão apenas com os antirretrovirais. Pode ser simplesmente uma pessoa que teve sorte com os anti-retrovirais”.


Infelizmente, a sorte do "paciente de São Paulo" parece ter acabado.


Como o Dr. Ricardo Diaz relatou no CROI, a equipe de pesquisa continuou a monitorar a carga viral do homem e examinou amostras de sangue armazenadas para analisar respostas imunológicas mediadas por células e outros parâmetros.


Enquanto o homem estava no regime intensificado de tratamento, ele mostrou respostas crescentes das células T contra as proteínas do envelope do HIV, a principal proteína estrutural do HIV. Mas essas respostas mediadas por células "desapareceram progressivamente" em paralelo com a redução dos anticorpos específicos para o HIV após a interrupção do tratamento.


Em setembro de 2020, o homem foi diagnosticado com sífilis secundária. Naquela época, sua carga viral ainda estava abaixo do limite de detecção. Mas em 10 de novembro (72 semanas após a interrupção do tratamento) ele apresentou sintomas como febre, calafrios, dor de cabeça e diarréia, e descobriu-se que ele tinha uma carga viral superior a 6.300 cópias. Seus anticorpos contra o HIV também começaram a aumentar nessa época. No início de dezembro, ele iniciou um esquema padrão baseado em dolutegravir e, em 1º de janeiro, sua carga viral estava novamente indetectável.


A cepa emergente do HIV tinha diferenças genéticas no envelope e em algumas proteínas em comparação com a cepa de base, que estava armazenada no laboratório, e a razão para isso ainda não está clara. As possibilidades incluem evolução viral dentro do corpo do paciente, reinfecção com uma nova cepa ou ressurgimento de "cepas antigas" de infecção dupla anterior, sugeriu Diaz, embora tenha acrescentado que pessoalmente não acredita que a mudança se deva à evolução.


Sequenciamento genético adicional e análise de respostas de anticorpos estão em andamento em um esforço para determinar se o homem experimentou um verdadeiro rebote viral ou uma reinfecção.


Abaixo, veja o vídeo explicativo sobre a pesquisa do Dr. Ricardo Diaz:


REFERÊNCIAS / FONTE

▶ DIAS, Ricardo et al.: The Sao Paulo patient: losing cellular immunity and reemergence of distinct HIV. Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, CROI2021, abstract 313.

▶ HIGHLEYMAN, Liz: São Paulo patient experiences apparent viral rebound a year and a half after stopping HIV treatment. Mar/2021. Disponível aqui.

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